O Brasil é o Vasco da inteligência artificial

9 mar

O Brasil é o Vasco da inteligência artificial

Ao ler o texto de Gerson Rolim sobre a vice-liderança do Brasil no uso de inteligência artificial (vale a leitura) Decidi escrever a minha versão. A minha intenção aqui não é repetir o argumento do Gerson, mas olhar para esse comportamento por outro ângulo. O título, claro, é uma brincadeira com os vascaínos. Me perdoem, mas a piada estava pronta. Se o Brasil está na vice-liderança do uso de IA, então o Brasil é o Vasco da inteligência artificial. Mas será que o brasileiro é um usuário voraz apenas desse tipo de tecnologia? Ou esse padrão também aparece em redes sociais, aplicativos e outras plataformas digitais?

A IA só revelou um traço antigo do brasileiro

A resposta curta é que não, isso não se limita à inteligência artificial. A IA apenas escancarou um traço que o Brasil já exibia havia muito tempo. O brasileiro não é apenas um usuário intenso de uma tecnologia específica. Ele é, de forma recorrente, um adotante rápido de ferramentas que entram na vida cotidiana por meio da comunicação, da convivência, do improviso e do pertencimento.

É por isso que a inteligência artificial encontrou aqui um terreno tão fértil.

Quando se olha só para o dado de adoção, o cenário impressiona. Segundo levantamento citado pela Agência Brasil, 54% dos brasileiros afirmam usar ferramentas de inteligência artificial, acima da média global de 48%. O entusiasmo também é maior por aqui. Cerca de 65% dos brasileiros dizem estar otimistas com o potencial da tecnologia, contra 57% no mundo, e 68% dos trabalhadores confiam que ela trará benefícios para o mercado de trabalho. O dado é expressivo, mas ele fica mais interessante quando colocado em perspectiva.

Do Orkut ao TikTok, tecnologia aqui vira convivência

O Brasil não virou um caso singular por causa da IA. O Brasil já era um caso singular antes dela.

Basta lembrar o papel que as redes sociais ocuparam por aqui desde muito cedo. O Orkut, no fim dos anos 2000, não foi apenas um site popular. Em muitos sentidos, ele foi a própria internet brasileira. O país chegou a ter mais de 40 milhões de usuários na plataforma em 2008, num momento em que boa parte da população ainda estava fora do ambiente digital. Aquilo não era simples curiosidade tecnológica. Era uma forma de pertencimento, de sociabilidade e de construção de identidade.

Essa lógica não desapareceu. Ela só mudou de plataforma.

Com a migração para o celular, a tecnologia passou a ocupar no Brasil um espaço que, em outros países, é distribuído entre várias instituições e ambientes. O telefone virou praça pública, balcão de venda, entretenimento, canal de conversa, ferramenta de trabalho e lugar de reconhecimento social. Em um contexto desigual, no qual o acesso a lazer, mobilidade e oportunidades é restrito para muita gente, o ambiente digital oferece uma espécie de atalho barato para presença social. Isso ajuda a explicar a adoção massiva de plataformas como WhatsApp, Instagram e TikTok, movida não apenas por utilidade, mas também por medo de exclusão e busca de status.

No Brasil, ferramenta vira linguagem

Quando a IA chega a um país assim, ela não entra só como ferramenta. Ela entra como linguagem.

É por isso que tanta coisa feita com IA por aqui rapidamente vira piada, experimento, teste social, conversa de grupo, curiosidade de trabalho ou conteúdo de rede. Não se trata apenas de uma população interessada em produtividade. Trata-se de uma cultura que tende a absorver tecnologia pelo lado mais humano, mais relacional e mais imediato do uso.

Isso também aparece nos números de redes sociais. O brasileiro passa, em média, 3 horas e 32 minutos por dia nessas plataformas, bem acima de países como Estados Unidos, Reino Unido e Coreia do Sul. Não é só uma diferença de volume. É uma diferença de papel social. Em outros lugares, a internet tende a ser mais compartimentada. Há uma separação maior entre ferramenta de trabalho, ambiente de lazer e espaço de aprendizagem. No Brasil, essas fronteiras são muito mais porosas. Tudo se mistura. É exatamente nesse tipo de ecossistema que uma tecnologia como a inteligência artificial se espalha com velocidade.

Uso rápido não é a mesma coisa que domínio

O problema é que adoção rápida não significa domínio profundo. A pesquisa da Talk Inc., citada no material que embasa esta análise, mostra que a adoção de IA no Brasil saltou de 63% para 89% em um ano. Mesmo assim, apenas 12% dos usuários dizem ter muito conhecimento sobre a tecnologia. Na prática, a maioria usa essas ferramentas como um novo mecanismo de busca, um atalho para resumos, respostas prontas e roteiros de viagem. Isso ajuda a explicar o paradoxo brasileiro. O país abraça a novidade em velocidade recorde, mas nem sempre transforma esse contato inicial em competência produtiva.

A diferença entre usar e extrair valor é o centro da história. Há uma distância enorme entre brincar com uma ferramenta, incorporá-la ao vocabulário cotidiano e reorganizar processos a partir dela. A IA pode servir para gerar imagem, legenda e trocadilho, mas também pode servir para automatizar atendimento, organizar operação, acelerar análise de dados, reduzir custo e ampliar margem. A primeira camada é visível, divertida e circula rápido. A segunda é mais silenciosa, menos vistosa e muito mais valiosa.

O Brasil é ótimo na primeira etapa. Ainda patina na segunda. E isso nos leva ao ponto mais desconfortável da discussão. O problema não está apenas no comportamento digital. Está na base que sustenta esse comportamento. O país ocupa a 63ª posição em educação, e os resultados do PISA 2022 ajudam a mostrar o tamanho do gargalo. O Brasil teve 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências, todos muito abaixo da média da OCDE. Apenas 27% dos estudantes brasileiros atingiram o nível mínimo esperado em matemática, contra 69% na média da organização.

Isso importa porque inteligência artificial não substitui formação. Ela amplia o que já existe. Na mão de alguém com repertório, método e capacidade analítica, a ferramenta acelera. Na mão de alguém sem base, ela apenas simplifica. Em alguns casos, até emburrece o processo, porque entrega respostas sem exigir elaboração. O risco não é a tecnologia pensar por nós. O risco é nos acostumarmos a terceirizar justamente o tipo de raciocínio que mais precisaríamos desenvolver.

A distração digital é parte do problema

O contraste entre uso intenso e base frágil aparece também na escola. No Brasil, 45% dos estudantes relatam se distrair com dispositivos digitais em sala de aula, bem acima da média da OCDE, que é de 30%. Ou seja, não estamos falando apenas de acesso à tecnologia. Estamos falando da capacidade de organizar atenção, contexto e finalidade num ambiente saturado de estímulo.

É aí que a inteligência artificial encontra o Brasil real. Um país extremamente conectado, profundamente social, criativo na apropriação de ferramentas, mas com enormes dificuldades para converter essa energia em aprendizado estruturado, produtividade consistente e inovação de base. Essa contradição fica mais clara quando se observa o tipo de digitalização que avançou por aqui. Segundo o material analisado, 50,2% dos brasileiros usam redes sociais para o trabalho, mas esse número precisa ser lido com cautela. Muitas vezes, ele reflete a digitalização da economia informal. WhatsApp e Instagram funcionam como o sistema operacional do pequeno empreendedor, servindo para vender, atender, cobrar e divulgar.

Isso é relevante, claro. Só não é o mesmo que transformação produtiva profunda.

 

Consumimos o futuro melhor do que o produzimos

Vender pelo chat é melhor do que vender de porta em porta. Atender pelo direct é melhor do que depender só do ponto físico. Mas ainda há uma grande distância entre esse tipo de ganho e uma economia baseada em automação sofisticada, integração de dados, pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico de alto valor. Em outras palavras, o Brasil digitalizou muita coisa por baixo, mas ainda transformou pouco por dentro.

O resultado é um país que consome o futuro com facilidade, mas produz pouco dele.

Essa dificuldade aparece também nos indicadores de inovação. O Brasil caiu da 50ª posição em 2024 para a 52ª no Global Innovation Index de 2025. O dado sugere que o país é relativamente melhor em resultados criativos do que nos insumos necessários para inovar de forma robusta. Em instituições, o Brasil aparece na 107ª posição. Em infraestrutura, na 60ª. É quase como se a criatividade nacional operasse sempre com o freio de mão puxado.

Por isso a pergunta mais interessante não é se o brasileiro usa muita IA. Usa. E provavelmente vai usar ainda mais.

A pergunta importante é outra. Por que o brasileiro adota tão rápido tecnologias de comunicação e de interface, mas tão raramente transforma isso em avanço estrutural?

A resposta, para mim, passa por quatro camadas.

A primeira é cultural. O brasileiro trata tecnologia como espaço de convivência. A ferramenta entra no cotidiano não apenas por eficiência, mas por afeto, curiosidade e reconhecimento social.

A segunda é econômica. Em um país desigual, com forte informalidade, a tecnologia frequentemente vira instrumento de sobrevivência e improviso. Ela ajuda a vender, divulgar, resolver e circular renda, mas nem sempre reorganiza o sistema produtivo.

A terceira é educacional. Sem base sólida em leitura, lógica, matemática e atenção, o uso tende a ficar na superfície, mesmo quando a ferramenta é poderosa.

A quarta é institucional. O ambiente brasileiro ainda impõe barreiras para transformar criatividade em ciência aplicada, empresa escalável e inovação duradoura.

O problema não é usar muito. É transformar pouco

É isso que faz do brasileiro um usuário tão diferente da maioria. Não é apenas entusiasmo pela novidade. É a combinação entre sociabilidade intensa, desigualdade estrutural, improviso econômico e baixa capacidade institucional de converter adoção em competência.

A inteligência artificial só tornou esse padrão mais visível. Talvez por isso a imagem mais precisa do Brasil digital não seja a de um país atrasado. Ela também não é a de um país avançado. É a de um país que entra rápido em toda novidade, aprende a brincar com ela, adapta a ferramenta à própria vida e a espalha com uma velocidade impressionante, mas nem sempre constrói o fundamento necessário para fazer disso poder real.

No futebol, vice-liderança pode até virar piada. Na tecnologia, ela deveria virar incômodo.

Porque o Brasil já provou que sabe usar. O que ainda não provou, em escala, é que sabe transformar uso em conhecimento, conhecimento em processo e processo em vantagem duradoura.

Talvez essa seja a pergunta que realmente importa. Não se vamos continuar adotando novas tecnologias antes de quase todo mundo. Isso provavelmente vamos. A questão é se, um dia, vamos deixar de ser apenas excelentes em consumir o futuro para finalmente aprender a produzi-lo.